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Eleição Bolsonaro: a legitimação do golpe

Depois de uma série de manobras e da megaoperação  montada pela burguesia para retirar o PT do poder, com destaque para a atuação da imprensa corporativa e do poder judiciário, o representante da extrema-direita, Jair Bolsonaro (PSL), foi eleito presidente do Brasil, no último dia 28 de outubro. Tal eleição representa a legitimação do golpe de Estado de 2016 (iniciado já em 2014), de tipo jurídico/parlamentar, que expurgou da Presidência (sem qualquer comprovação de crime) a primeira mulher eleita no Brasil (em 2014), Dilma Rousseff, e que mantém como preso político o maior líder popular do País, o ex-presidente Lula, o escolhido do povo e comprovadamente capaz de vencer a direita por meio do voto (apesar do golpe) – por isso mesmo retirado do páreo eleitoral.

Bolsonaro recebeu 57.797.847 votos, o que representou 55,13% dos votos válidos, enquanto que o candidato do PT, Fernando Haddad, obteve 47.040.906 votos, ficando com 44,87% dos votos válidos (foram 104.838.753 votos válidos). Em termos absolutos, levando em consideração que o eleitorado é de 147.306.294 pessoas, Bolsonaro recebeu pouco mais de 39,23% dos votos, enquanto que Haddad ficou com cerca de 31,93%. 

Entretanto, o número de pessoas que não votaram (se abstiveram), ou votaram nulo e branco, soma 42.466.402 (aproximadamente 28,82% do eleitorado). Desses, 31.371.704 (algo em torno de 21,29% do eleitorado) se abstiveram; 2.486.593 (mais de 1,68% do eleitorado) votaram branco e 8.608.105 (mais de 5,84% do eleitorado) votaram nulo. Somando esses mais de 42,4 milhões com os votos dados ao candidato do PT (mais de 47 milhões), conclui-se que quase 90 milhões de brasileiros não optaram pelo candidato da extrema direita – sendo mais exato: 89.507.308 brasileiros, ou seja, aproximadamente 60,76% do eleitorado. Vale destacar, ainda, que 1.139 votos não foram apurados.

Outro dado que vale a pena ressaltar é a votação por municípios: o PT saiu vitorioso na maioria das cidades (50 a mais) – 2.810 municípios preferiram Haddad, enquanto Bolsonaro ganhou em 2.760. A cidade que deu a maior porcentagem de votos para o PT foi Guaribas (PI), onde 97,99% dos votos válidos foram para Haddad, enquanto Bolsonaro teve sua maior porcentagem na cidade de Nova Pádua (RS), onde tirou 92,96% dos votos válidos.

Portanto, embora vitoriosa a farsa iniciada há quatro anos, Bolsonaro foi, ainda assim, eleito por uma minoria para governar para um grupo seleto da elite econômica do País.


Nordeste, região mais pobre do País, é principal ponto de resistência


A análise da votação por região apresenta dados que chamam a atenção. Não por acaso, dentre as regiões mais pobres do Brasil, foi no Norte e Nordeste onde o PT obteve suas maiores votações. No Norte, apesar do PSL ter ganhado, houve um equilíbrio - 51,9% contra 48,1% (votos válidos). Nessa região, o PT chegou a vencer em dois estados: Pará e Tocantins. No Nordeste, por sua vez, houve unanimidade contra a extrema-direita e todos os nove estados votaram majoritariamente no candidato do PT. Essa foi a região, inclusive, de maior diferença percentual entre os candidatos: 69,7% para o PT, contra 30,3% do PSL (votos válidos). Em termos numéricos, foram 20,28 milhões de votos para Haddad, contra 8,82 milhões para Bolsonaro. Entretanto, nas demais regiões do País, o candidato do PSL saiu vitorioso.

Chama a atenção que, ao contrário das outras regiões, o que se observou no Nordeste foi um aumento no número de pessoas votando no PT em comparação às três últimas eleições. Em 2010, o PT teve 18,4 milhões de votos; em 2014 subiu para 20,17 milhões e agora, em 2018, foi para 20,28 milhões. Em quatro estados, o desempenho do PT superou a faixa dos 70% dos votos válidos, são eles: Piauí – 77%; Maranhão – 73,3%; Bahia – 72,7% e Ceará – 71,1%.

Não só isso. Em termos de governadores, essa foi a primeira vez que a região apresentou homogeneidade, elegendo quatro governadores do Partido dos Trabalhadores, entre elas a única mulher eleita governadora no País, Fátima Bezerra, do Rio Grande do Norte, e os outros cinco das coligações aliadas. Individualmente, graças ao Nordeste, o PT configurou como o partido que mais conquistou estados (Bahia, Ceará, Piauí e Rio Grande do Norte), sendo três deles eleitos já no primeiro turno. Essa foi a única região em que o PT elegeu representantes para o poder executivo.

 No geral, em termos de coligação, dos 27 governadores eleitos no País, 14 se declararam apoiadores de Bolsonaro, quatro se apresentaram como neutros e nove apoiaram Fernando Haddad (todos do Nordeste).

Tais números mostram que justamente a região mais pobre representa um ponto de resistência, uma ruptura com a política da direita e, por esse motivo, poderá ser a principal atacada. Tudo indica que as políticas sociais que tiraram milhares da pobreza, especialmente nos governos do PT, sofrerão graves retrocessos. Não por acaso, as falas de cunho fascista de Bolsonaro atacavam, com particular crueldade, os nordestinos, a quem se referia como “comedor de capim”, por votar no PT.

Entretanto, a região poderá se fortalecer se houver uma organização de unidade política de todos os estados do Nordeste, em especial o eixo Bahia, Pernambuco e Ceará. Essa unidade poderá fazer uma forte pressão, tendo em vista que a região é rica em petróleo, gás natural e matéria prima.


Eleição da extrema-direita é desfecho do golpe


A eleição de Bolsonaro, conforme denúncias feitas pela própria imprensa burguesa, foi organizada por meio de robôs e fakes News (notícias falsas), num plano combinado com os Estados Unidos. Não por acaso, ainda no início da campanha, o filho de Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro, chegou a afirmar que o marqueteiro de Donald Trump, Steve Bannon, iria auxiliar a campanha do pai. Já um levantamento realizado pelo instituto InternetLab, mostrou que 400 mil seguidores de Bolsonaro no Twitter eram robôs e cerca de 33% dos perfis que seguem o candidato são falsos, controlados por computadores.

A denúncia feita pelo jornal Folha de São Paulo, por sua vez, revelou o esquema de caixa dois envolvendo tal candidatura. Conforme a reportagem intitulada “Empresários bancam campanha contra o PT pelo Whatsapp”, os contratos realizados pelas empresas para realizar “disparo em massa”, envios automáticos de mensagens via redes sociais, principalmente o whatsapp, chegavam ao patamar de R$ 12 milhões cada.  Entre as empresas que contrataram o serviço, a Folha destacou a Havan, empresa do setor varejista, que possui mais de 114 megalojas espalhadas pelo Brasil.

O fato é que a eleição da extrema-direita já vem sendo orquestrada há pelo menos quatro anos, desde a campanha de reeleição de Dilma Rousseff. Trata-se, efetivamente, de uma sequência da campanha de Aécio Neves: o mesmo tom nacionalista (uso da bandeira e camisas do Brasil), de suposto combate à corrupção, contra um hipotético “comunismo” do PT, em favor da “família tradicional brasileira”, fazendo uso de Deus etc. Segundo a declaração do Frei Betto, um dos maiores representantes da corrente Teologia da Libertação no Brasil, "Toda a campanha de Bolsonaro foi montada por setores evangélicos dos EUA. Há um grupo de extrema-direita de origem americana, o Instituto Millenium, representada pelo economista Paulo Guedes, que opera no Brasil para organizar e treinar uma geração de jovens de direita muito beligerante".

Na verdade, o que a direita fez nestas eleições foi o que se pretendia ter feito já em 2014, mas que foi adiado, pois não foi possível bater o PT nas urnas. A partir de então, o que se viu foi uma intensificação dessa política com o golpe de 2016, os desdobramentos da Lava Jato e, principalmente, a prisão política de Lula, única forma de impedir as eleições do PT. Mesmo a megaoperação orquestrada principalmente pela imprensa, judiciário e igrejas não seria capaz de impedir Lula de ser presidente.

A burocracia sindical e dos movimentos sociais, por sua vez, se manteve totalmente paralisada, a exemplo dos inúmeros ataques promovidos por Temer, aprovados sem que qualquer enfrentamento real fosse feito. As mobilizações contra a Reforma Previdenciária, o movimento de Greve Geral, foi o único sopro de vida da burocracia, e que mesmo limitado conseguiu impor uma derrota parcial contra o governo golpista. O apelo à democracia burguesa inviabilizou qualquer plano de luta nas ruas. Apenas na reta final das eleições  houve uma pequena movimentação, insuficiente para reverter o jogo, mas que deixou claro o terreno fértil que se tem para organizar a luta.

A acessão da extrema-direita pretende encerrar, por ora, a política de conciliação de classes. O caminho que se apresenta é o da luta e resistência. Não haverá uma terceira via. As ruas são o próximo cenário do acirramento da crise e de um período pré-revolucionário.



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