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Eleições nos Estados Unidos: Entre a Cólera e a Gonorréia

Estas foram as palavras de Julian Assange, referindo-se às eleições norte-americanas, à escolha entre Donald Trump e Hillary Clinton. Assange é o líder do site de vazamentos de informações Wikileaks, que se encontra exilado há quase três anos na embaixada do Equador, em Londres.

As pesquisas apontam Donald Trump na frente de Clinton (44% contra 39%, segundo a última pesquisa da rede de televisão CNN), enquanto novos vazamentos mostram que Hillary foi favorecida, de maneira escancarada, contra a candidatura de Bernie Sanders, apoiado pelos movimentos sociais.

Os recentes e-mails vazados revelam as relações muito próximas da grande imprensa burguesa com o DNC (Comitê Nacional Democrata). Debbie Wasserman Schultz, do DNC, contatou o jornal The Washington Post, que esteve envolvido fortemente na arrecadação de recursos para Hillary Clinton, para pedir a manipulação de notícias. Ela também acionou o presidente da rede de televisão MSNBC, no meio de um programa, para que retira-se partes da intervenção de Bernie Sanders. Mais de oito mil arquivos anexados mostram o poder do grande capital na manipulação do já ultra escancarado processo eleitoral norte-americano.

O chamado Grupo de Bildelberg, que se reuniu há algumas semanas e que congrega os representantes diretos das 150 famílias que dominam o mundo, tinha colocado como duas das três prioridades evitar, “a qualquer custo”, a vitória do SIM no chamado “Brexit”: a saída da Grã Bretanha da União Europeia e a derrota de Trump. Perderam na questão do Brexit. E agora, o que acontecerá com Trump?

A principal função exercida por Donald Trump no atual processo eleitoral norte-americano, em princípio, passava por direitizar a pauta política nos Estados Unidos, que, obviamente, terá impactos muito importantes em escala mundial. A extrema direita norte-americana, agrupada no Tea Party, que atua dentro do Partido Republicano, tem um peso enorme, a começar nas duas câmaras do Congresso, mas ainda continua como uma carta na manga que poderá ser utilizada no próximo período. Um papel similar foi desempenhado pela candidatura de Mitt Romney nas eleições passadas vencidas por Barack Obama.

O problema colocado agora é que a candidatura de Trump, que levanta propostas abertamente de extrema direita, saiu do controle e avança muito além de onde o grande capital, e em primeiro lugar o chamado complexo militar-industrial e os especuladores financeiros, gostariam. A queridinha dos monopólios, Hillary Clinton, foi colocada contra as cordas.

O colapso capitalista de 2008, em cima da crise aberta pelas guerras do Afeganistão e do Iraque, levou à implosão do Oriente Médio que está na base da inundação da Europa com imigrantes.

Uma das bandeiras principais defendidas pela extrema direita é a questão dos imigrantes. Trump chegou a levantar a construção de um muro com o México e a proibição da entrada de muçulmanos nos país. Há quase 50 milhões só de hispânicos que moram nos Estados Unidos. A isto se soma a queda crescente do crescimento demográfico dos brancos norte-americanos.

A extrema direita mundial tem colocado os ataques contra os imigrantes no centro da política, levantando que os imigrantes devem ser expulsos, pois levam o sistema da saúde e da educação ao colapso, provocam o rebaixamento dos salários, além de “roubarem” os empregos. Mas basta substituir “imigrantes” e “muçulmanos” por “judeus” e “comunistas” para entender perfeitamente os verdadeiros objetivos da extrema direita e quem está por trás deles.

A vitória do Brexit alavancou a campanha de Donald Trump, que tem levantado bandeiras chovinistas e xenofóbicas alinhadas com as da extrema direita europeia.

O apoio financeiro à candidatura de Hillary Clinton é o maior disparado, o que mostra que ela conta com a confiança dos monopólios, inclusive porque se trata de um elemento testado em várias ocasiões, tanto nos dois governos do marido, Bill Clinton, como ela própria à frente do Departamento de Estado. Bernie Sanders conseguiu mobilizar comícios com milhares de pessoas em vários locais e os seus contribuintes foram, principalmente, pequenos doadores.


Hillary Clinton foi transformada na queridinha da “ala democrática” do imperialismo. Os órgãos da imprensa que a representam, tais como os jornais The New York Times e Los Angeles Times, se engajaram na campanha.

Sobre o sistema financeiro, Sanders, que se auto define como um “democrata socialista”, disse que se trata de “um casino capitalista que faz com que poucos tenham muito”. Clinton disse que seria um “erro grave” dar as costas para um sistema que construiu a classe média norte-americana. O governo de Bill Clinton representou a continuidade da política neoliberal dos governos de Ronald Reagan. Os Clinton contam com a confiança dos grandes bancos em primeiro lugar.

A questão do vazamento dos inúmeros e-mails confidenciais de Hillary Clinton, que está na base da propaganda da ala direita, continua sendo uma arma nas mãos da direita. Eles poderão aperta-la, caso julgue necessário, contra as políticas tradicionais do Partido Democrata, como a defesa dos direitos dos gays, dos imigrantes, do direito ao aborto.

O FBI inocentou Clinton sobre o vazamento dos e-mails confidenciais do governo, que poderiam ter ido parar nas mãos dos sionistas israelenses. Trata-se de um vale tudo, de um jogo de cartas marcadas, onde os monopólios apostam as fichas em um ou em outro candidato, dependendo dos riscos que devam assumir, fundamentalmente, perante o aprofundamento da crise capitalista mundial.

A ficha do candidato democrata de última hora, o vice presidente Joe Biden, no jogo eleitoral, representou uma carta ainda mais à direita que a de Clinton, que poderia tê-la substituído para enfrentar Trump e para evitar o descontrole do candidato “esquerdista” Sanders. Agora, ainda resta ver o que a Convenção do Partido Democrata irá fazer entre os dias 25 a 28 deste mês. Se validar Hillary Clinton como a candidata oficial do Partido há o risco da candidatura Trump continuar crescendo. Se escolher a candidatura Sanders, a crise política do país poderá escalar ainda mais.

A candidatura de Bernie Sanders, o “esquerdista” concorrente de Hillary Clinton, representou um instrumento para canalizar, pela via eleitoral, o crescente descontentamento da população contra a crise e o regime. Sanders apoiou Clinton, após a derrota nas primárias e, em cima da política do “mal menor”, tenta levar consigo o apoio de setores do movimento popular. Ao mesmo tempo, Sanders também representa um termômetro do aprofundamento da crise generalizada na principal potência mundial. Sanders se encontra muito longe das ilusões geradas por amplos setores da esquerda de que, supostamente, estaria representando alguma ameaça para o regime, que nos Estados Unidos é extremamente controlado pelo grande capital. O papel de coadjuvante é típico do Partido Democrata e foi cumprido, nas eleições passadas, por outros candidatos “esquerdistas” como o Reverendo Jesse Jackson. Mas a eventual, e não provável, nomeação de Sanders, refletiria que a crise do regime político teria ido à estratosfera.


Se colocar no mesmo campo da extrema-direita é inconcebível para um revolucionário. A política contra os imigrantes é uma máscara para ocultar os verdadeiros objetivos, os mesmos que o nazi-fascismo teve às vésperas da Segunda Guerra Mundial. Como disse o famoso poeta alemão Bertold Brecht, no seus muito conhecidos versos: “primeiro eram os judeus, eu não me importei. Depois eram os comunistas, eu não me importei…”. Na prática, conforme a extrema-direita se afiança no poder ela se burocratiza e se vale dos aparatos do estado para liquidar com os órgão de massa dos trabalhadores e com toda oposição, inclusive a oposição de extrema-direita. Não esquecer que Hitler acabou com as SA, que eram batalhões de choque formado a partir do movimento de massas fascista pequeno-burguês, e as substituiu pelas, profissionais e assassinas, SS.

Dos resultados das eleições presidenciais norte-americanas dependerá, em grande medida, a evolução da situação política mundial e, especificamente, no Brasil e na América Latina. A ala direita do imperialismo tende a aplicar uma política mais dura, a se distanciar das políticas de Obama, rotuladas de “contrarrevolução democrática”, e a se alinhar com os aliados tradicionais, como a Arábia Saudita e os sionistas israelenses, se distanciando dos atuais aliados impulsionados por Obama para aplicar a política de estabilização do Oriente Médio, a Rússia, o Irã e a China.

No próximo período, a partir do próximo ano, deverá acontecer uma maior direitização do regime político nos Estados Unidos e, como reflexo, na América Latina e no Brasil. Hillary Clinton representa uma política à direita de Obama. O aperto contra o regime político será inevitável. Por esse motivo, os revolucionários devem denunciar que é impossível lutar contra o avanço do golpismo sem lutar contra o imperialismo. E no Brasil essa é uma questão central por causa da debilidade dos golpistas de plantão (o governo Temer) e a pressão da burguesia para impor um regime mais forte, que tenha condições para impor o “ajuste” contra os trabalhadores.

A “frente popular” representa um instrumento do imperialismo. Ela mantém todos os acordos depredadores impostos durantes os governos de FHC a ainda antes. Lula venceu as eleições de 2002 após ter ido aos Estados Unidos, junto com figurões do PSDB, para pedir a benção do direitista George Bush Jr.

A luta contra o golpe não passou de uma farsa. A greve geral política, que somente teria condições de avançar numa situação revolucionária, foi o mecanismo encontrado pelo lulismo para disfarçar a paralisia e a política de conchavos com a direita. Depois do impeachment contra a presidente Dilma, a Frente Brasil Popular nada fez. As manifestações e os protestos foram paralisados, sendo o próximo agendado apenas para o dia 21 de agosto. Tudo foi direcionado para os conchavos com a direita e para a tentativa de manter o lugar ao sol do regime burguês pela cúpula do PT.

É preciso levantar as palavras de ordem:

Fora o imperialismo do Brasil e da América Latina!

Contra os golpistas e seus agentes!

Abaixo da política de preservar a “governabilidade”!

Não ao acordão do PT com a direita!

Não ao Ajuste, pelos Direitos dos Trabalhadores!

Pela luta unificada contra as privatizações!

Que a crise seja paga pelos capitalistas!


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