Sob o pretexto de defender a população que sofre nas filas de atendimento da Saúde Pública, políticos populistas têm invadido postos de atendimento, geralmente aos berros, e viralizando as ações nas redes sociais. Tais medidas, além de representarem grandes riscos aos trabalhadores da saúde, que sofrem com constantes violência no local de trabalho, colocam em risco a vida dos pacientes. Longe de representar qualquer “defesa” da população, o objetivo das ações é dar prestígio aos invasores, que fingem defender os usuários enquanto promovem a destruição dos serviços públicos para lucrar com as privatizações.
Um exemplo clássico ocorreu no último dia 3 de fevereiro, na cidade de Felício dos Santos, no Vale do Jequitinhonha (MG), ocasião em que o vereador Wladimir Canuto (Avante) invadiu a Sala Vermelha de uma Unidade Básica de Saúde, interrompendo o atendimento de alta complexidade a um paciente grave, de 93 anos, que acabou morrendo instantes após a confusão. O registro da ocorrência aponta que, mesmo após ser informado de que uma equipe médica estava no atendimento de emergência a um paciente cardíaco, o parlamentar entrou nos corredores do hospital, invadiu um consultório e saiu aos gritos denunciando um médico que, segundo ele, estaria utilizando um aplicativo de mensagens durante o horário de serviço. Em seguida, Wladimir se apresentou à "sala vermelha", destinada ao atendimento de casos urgentes, onde uma equipe estava tratando do paciente em arritmia cardíaca grave. Devido ao estado crítico do paciente, o atendimento exigia atenção total no acompanhamento de soluções através de monitor pelo tratamento de cardioversão química e isso foi prejudicado pela invasão do vereador.
Canuto, assim como vários outros políticos cujos partidos atuam para destruir os serviços públicos, argumenta que estava ali “defendendo a população”, “cansada de esperar pelo atendimento”. Se de fato este era o objetivo, a única ação possível passaria pela defesa do SUS, visando sua melhoria por meio da destinação de mais recursos para equipamentos, infraestrutura e profissionais, jamais atrapalhar o trabalho dos profissionais da saúde, tampouco interromper atendimentos de urgência. A ação, com seu desfecho fatal, não deixa dúvidas quando as verdadeiras intenções desses políticos antipovo.
Casos semelhantes ocorreram em Jundiaí (SP), promovidos pelo vereador Leandro Basson (PL) e na capital paulista pelo vereador Lucas Pavanato (PL). Em janeiro deste ano, também o prefeito de São Bernardo do Campo, Marcelo Lima, entrou no Hospital de Urgência da cidade, invadindo consultórios, interrompendo os atendimentos e gritando com plantonistas em atendimentos. Esses políticos são eleitos para representar os interesses do povo, ou seja, para elaborar e aprovar leis municipais conforme as necessidades e o bem-estar da população, além de fiscalizar as ações do poder executivo, no caso de parlamentares. Não cabe a eles fiscalizarem in loco hospitais e unidades de saúde, desrespeitando as prerrogativas dos profissionais especializados e colocando em risco a segurança da população.
Ao atacar indiscriminadamente os servidores em seu espaço de trabalho, esses políticos não apenas agem como criminosos, violando a lei, mas também enganam a população ao jogarem a culpa pelos problemas de atendimento nos servidores, quando, na verdade, a responsabilidade está nas políticas públicas sobre as quais eles possuem o poder de decisão.
Políticos de extrema-direita utilizam o espetáculo e a exceção dos fatos para fazer palanque eleitoreiro, encobrindo a verdadeira face de suas atuações políticas. Coordenam uma campanha intensa contra os servidores enquanto usam o poder de representantes eleitos para destruir os serviços públicos por meio de leis e medidas que precarizam as condições de trabalho e os serviços prestados, favorecendo a privatização.
Ao invés de defender os interesses do povo — que, em sua maioria, depende dos serviços públicos e merece que estes sejam de qualidade — as ações violentas desses parlamentares colocam em risco a vida dos pacientes e desqualificam os profissionais que estão na linha de frente para salvar vidas. Já o seu próprio papel, que é garantir a administração correta dos recursos públicos destinados à Saúde, eles não o cumprem.
Foto: TARSO SARRAF | Crédito: AFP