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Por que a escala 6x1 precisa ser extinta?

A redução da jornada de trabalho é pauta histórica das lutas da classe trabalhadora diante do incessante avanço tecnológico da sociedade

A escala 6x1, que exige seis dias consecutivos de trabalho e um dia apenas de descanso, tem sido alvo de críticas intensas por parte de trabalhadores e especialistas e movimentado as redes sociais nesse período recente.  

A redução da jornada de trabalho é pauta histórica das lutas da classe trabalhadora diante do incessante avanço tecnológico da sociedade. No Brasil, ganhou destaque nos últimos tempos o debate sobre os impactos negativos dessa jornada extenuante, a partir de projetos de emendas constitucionais (PECs) que propõem alternativas que visam melhorar a qualidade de vida dos profissionais e possibilitar a criação de novos postos de trabalho. 

Impactos da escala 6x1 na vida do trabalhador 

A rotina imposta pela escala 6x1 compromete negativamente diversos aspectos da vida do trabalhador, sendo vantajosa, única e exclusivamente, para os patrões, como podemos ver a seguir: 

  • Tempo para lazer e família: com apenas um dia de folga semanal é desafiador dedicar tempo à família, amigos ou atividades pessoais, essenciais para o bem-estar emocional e social. 

  • Saúde física e mental: a sobrecarga de trabalho contínua pode levar ao estresse, fadiga e doenças relacionadas ao trabalho, afetando a saúde geral do indivíduo. 

  • Qualidade de vida: a falta de equilíbrio entre vida profissional e pessoal pode resultar em insatisfação e diminuição da motivação no ambiente de trabalho. 

Propostas para uma jornada de trabalho mais equilibrada 

A adoção de escalas alternativas pode proporcionar maior equilíbrio entre trabalho e vida pessoal. É o caso da escala 5x2, que está em discussão no Congresso Nacional por meio de PEC. Nessa modalidade, a proposta é trabalhar de segunda a sexta-feira, com dois dias consecutivos de descanso, permitindo um fim de semana completo para o trabalhador. Essa escala já funciona em várias categorias de trabalho, mas seria uma evolução para muitas outras categorias que trabalham na rotina 6x1, como os comerciários, por exemplo.  
Porém, existe a possibilidade de se adotar uma escala que melhor atenda às necessidades da classe trabalhadora em sua maioria. É a escala 4x3: quatro dias de trabalho seguidos por três de folga, sem redução de salários e benefícios, oferecendo período mais prolongado de descanso. Essa escala já existe em algumas categorias de trabalhadores, entre elas a de Tecnologia da Informação (ainda que timidamente), com resultados bem satisfatórios para os trabalhadores e para as empresas. 

Reduzir a jornada melhora a qualidade de vida dos trabalhadores, aumenta a produtividade e reduz o absenteísmo, o que, do ponto de vista capitalista, é bom para o empregador. Ainda assim, mesmo que tal conquista não coloque em risco o sistema, mas apenas garanta um pouco de dignidade ao trabalhador, as propostas em debate têm sofrido, no Congresso Nacional e nas entidades representantes da grande burguesia, uma forte resistência. 

Benefícios para a classe trabalhadora e a economia 

A implementação de jornadas de trabalho mais equilibradas pode trazer diversos benefícios para o trabalhador, para o empregador e para a sociedade como um todo, exemplos: 

 

  • Redução do estresse e melhora na saúde: períodos adequados de descanso contribuem para a recuperação física e mental, resultando em trabalhadores mais saudáveis e motivados. 

  • Aumento da produtividade: trabalhadores descansados tendem a ser mais eficientes e engajados, impactando positivamente os resultados das empresas. 

  • Geração de novos empregos: a redução da carga horária semanal permite levar à contratação de mais profissionais para cobrir os turnos, contribuindo para a diminuição do desemprego. 

Como se vê, a extinção da Escala de Trabalho 6X1 e a adoção de escalas de trabalho mais humanas não representam, a priori, nenhuma perda econômica para os patrões. Portanto, devem ocorrer sem nenhuma perda nem de salário, nem de benefícios. 

Movimento VAT e o legislativo 

Um movimento aparentemente espontâneo, com viés antipartidário, denominado VAT (Vida Além do Trabalho) ganhou força nas redes sociais no final do ano passado e impulsionou a apresentação de uma PEC da deputada federal do PSOL, Erika Hilton, propondo reduzir a jornada de trabalho para 36 horas semanais, numa escala de quatro dias de trabalho seguidos por três de descanso. A PEC conseguiu as assinaturas necessárias e será protocolada, segundo sua autora, ainda neste mês de fevereiro. O ativismo impulsionado pela repercussão do movimento VAT trouxe à luz outra PEC, de autoria do deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), proposta em 2019, que reduz de 44 para 36 horas a jornada semanal do trabalhador brasileiro, com prazo de dez anos para se concretizar. O texto tramita na Câmara dos Deputados. Para Lopes, a medida pode reduzir o desemprego no País. “Em vários países, a redução da jornada de trabalho sem redução salarial tem sido discutida como um dos instrumentos para preservar e criar empregos de qualidade e possibilitar a construção de boas condições de vida”, afirma. 

No entanto, a possibilidade de aprovação dessas PECs no atual Congresso Nacional, formado por representantes dos inimigos dos trabalhadores, é praticamente nula se não houver uma grande pressão popular. Por isso tal debate é fundamental e ganhou força entre as entidades representativas de trabalhadores, que reconhecem a viabilidade econômica de uma jornada reduzida e a importância de políticas públicas que promovam o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal. São as centrais, sindicatos e partidos de esquerda os responsáveis por fazer a necessária agitação em torno dessa que representaria uma conquista histórica da classe trabalhadora brasileira. 

Ao se adotarem jornadas que respeitem o tempo de descanso e lazer dos trabalhadores, o sistema capitalista não sofre nenhum risco, pois é possível promover uma força de trabalho mais saudável, produtiva e satisfeita, além de contribuir para a criação de novos postos de trabalho e o fortalecimento da economia nacional. A resistência da burguesia nacional em permitir tal avanço comprova a voracidade com que ela quer explorar a classe trabalhadora, tendo como meta exclusivamente a manutenção e elevação de suas taxas de lucros. Cabe aos trabalhadores organizar a luta por esse direito, uma vez que no mundo atual a tecnologia é responsável por inúmeras tarefas que descartam o trabalho humano e isso precisa ser encarado positivamente, pois tecnologia é conquista social e não deve beneficiar apenas os detentores do poder econômico. Seria mais um avanço na luta dos trabalhadores rumo a uma sociedade sem exploração da mão de obra de muitos para o acúmulo absurdo e imoral de capital por parte de algumas poucas oligarquias que dominam o sistema capitalista. 

 Foto: Sindifes


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