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O neoliberalismo e o adoecimento dos professores

Estudos revelam que a incidência de Burnout é alarmante entre os docentes

De acordo com dados do Ministério da Previdência Social, em 2024, ocorreu um alarmante aumento nos afastamentos laborais devido a transtornos mentais, destacando-se a ansiedade e a depressão. Foram cerca de meio milhão de licenças médicas, 68% a mais em comparação com o ano anterior. Especialistas indicam que podemos estar diante da emergência de uma epidemia de sofrimento psíquico, que não pode ser compreendida sem se questionar a superexploração a que estão submetidos os trabalhadores com o aprofundamento do neoliberalismo. Exemplo concreto disto é a flexibilização dos direitos trabalhistas, conquistados em duras lutas dos trabalhadores, que leva à precarização das condições de trabalho e de vida.

Em janeiro de 2022, a Síndrome de Burnout passou a ser considerada uma doença ocupacional pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e entrou na classificação Internacional de Doenças (CID-11) como QD85. Do inglês "burn", que quer dizer queima, e "out", que significa exterior, a síndrome também é conhecida como esgotamento profissional e é um distúrbio psíquico de caráter depressivo, precedido de esgotamento físico e mental intenso, cuja causa está intimamente ligada à vida profissional.

No contexto educacional, essa síndrome afeta significativamente os professores, levando-os a um estado de exaustão física e emocional que compromete sua capacidade de ensinar e interagir com os alunos. A convivência com comportamentos desafiadores por parte dos alunos é um dos fatores que exacerbam o desgaste emocional dos professores. Porém, entre os principais fatores que contribuem para o desenvolvimento do Burnout entre docentes, a sobrecarga de trabalho, que inclui longas jornadas e múltiplas atividades extracurriculares, junto a um excessivo controle burocrático sobre o trabalho, está no topo das causas de adoecimento. Além disso, a falta de reconhecimento profissional, baixos salários e condições inadequadas de trabalho, como infraestrutura deficiente e recursos limitados, aumentam o estresse e a insatisfação no ambiente escolar. Soma-se a tudo isso o crescente assédio moral a que estão submetidos os professores em razão da mercantilização da Educação, que leva a pressão pelo cumprimento de metas baseadas em resultados do desempenho dos alunos em avaliações externas. Tal situação desconsidera os contextos sociais das escolas e anulam a autonomia docente.

Estudos revelam que a incidência de Burnout é alarmante entre os docentes. Aproximadamente um terço dos professores da educação básica sofre da Síndrome, segundo estudo feito na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), divulgado em 2023. A pesquisa avaliou 397 professores, de vários Estados, de colégios públicos e privados. "A educação básica tem estressores muito específicos, que vão além da regência e da burocracia. Professor lida com violência física e verbal na escola, falta de estrutura, sofre pressão da gestão escolar e da exigência dos pais", diz a pesquisadora Raphaela Gonçalves, que conduziu a investigação durante o mestrado em Ciências da Saúde.

Esse e outros estudos evidenciam a complexidade do problema e muitas empresas, cujo trabalho dos funcionários são fonte de lucros, debatem a necessidade de abordagens integradas para mitigar os efeitos do Burnout. No entanto, a Educação só é considerada “produtiva” para as classes dominantes se ela produzir trabalhadores moldados para as necessidades do mercado de trabalho. Para os interesses da burguesia, a educação escolar tem a função de controlar a classe trabalhadora e quando governos como o de Tarcísio de Freitas, em SP, e Ratinho JR, no PR, levam adiante o projeto neoliberal de destruição dos direitos trabalhistas e o enxugamento do Estado por meio de cortes nos serviços públicos, a educação assume um duplo papel. Primeiro, o de garantir verbas públicas a grupos empresariais em crise, enxugando gastos com valorização dos servidores e com melhoria nas escolas para celebrar acordos com empresas terceirizadas e fornecedoras de equipamentos que não melhoram as condições de trabalho e de aprendizagem oferecidas. O segundo papel é o de reproduzir a ideologia que garante o “treinamento” dos filhos da classe trabalhadora para o trabalho sem direitos, promovendo, no percurso, a exclusão dos que deverão constituir o exército de reserva para que salários sejam mantidos em níveis baixos.

Para combater a síndrome de Burnout e reduzir os índices de adoecimento entre professores é essencial implementar estratégias que promovam o bem-estar dos profissionais, investir em capacitação profissional de qualidade, oferecer suporte psicológico, melhorar as condições de trabalho e promover um ambiente escolar acolhedor e não hostil. Tais medidas fundamentais exigem políticas públicas comprometidas com a valorização do trabalho docente, que garantam salários justos e condições adequadas para o exercício da profissão.

Os governantes neoliberais estão na contramão de tudo o que pode assegurar uma educação de qualidade para os filhos da classe trabalhadora. Ao transformarem as Secretarias de Educação em balcões de negócios, onde o dinheiro público é administrado por empresários que trabalham para lucro pessoal e de parceiros, eles garantem as suas reeleições e ampliam suas redes de poder. Do outro lado estão alunos e professores, cuja adaptação a esse estado de coisas é impossível. Inevitavelmente, o adoecimento físico e mental vai afastar os profissionais mais capacitados e acelerar o processo de desprofissionalização, de imposição do trabalho intermitente, de substituição de professores por monitores e de ampliação da educação à distância. Por fim, se o momento é de desalento para os educadores, ele exige a organização da luta. Tudo o que está sendo retirado foi conquistado com muita luta e não faltarão os que irão batalhar por novas conquistas.

Imagem: reprodução


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