• Entrar
logo

Carnaval, uma passarela de disputas políticas e culturais

O Carnaval brasileiro em sua configuração atual, foi uma conquista das camadas mais pobres da população brasileira que, a contragosto das elites, saíram às ruas com suas músicas para festejar, subvertendo a ordem, criando um mundo fora das hierarquias sociais. Não é à toa que uma das maiores festividades do País tem sido palco de intensas disputas políticas e culturais. 

Enquanto a população utiliza a festa para promover pautas sociais e dar voz a grupos historicamente marginalizados, segmentos conservadores extremistas criticam o evento, associando-o a uma suposta “degradação moral”. Afinal, nada que vem do povo e que é para o povo tem valor para as elites. Trata-se de um retrato da polarização econômica e social. 

A relação entre o Carnaval e o conservadorismo no Brasil é complexa e reflete as tensões presentes na luta de classes da sociedade brasileira. Enquanto a festa continua a ser um espaço de resistência e afirmação cultural, principalmente entre os trabalhadores e periféricos, as críticas conservadoras da burguesia ressaltam as divergências sobre moralidade, identidade nacional e liberdade de expressão. 

Com isso, o Carnaval brasileiro, reconhecido mundialmente por sua exuberância e diversidade cultural, tem sido palco de intensas disputas ideológicas que refletem as complexas dinâmicas sociais e políticas do País. 

 

Carnaval como Palco de Resistência e Inclusão 

Historicamente, o Carnaval sempre foi mais do que uma simples festa: é uma manifestação cultural que permite a subversão de normas sociais e a expressão de vozes periféricas. As escolas de samba, em particular, desempenham um papel fundamental ao levar para a avenida enredos que abordam questões sociais, políticas e culturais que, muitas vezes, inovam na abordagem de temas desconhecidos pela maioria, e que promovem debates sobre problemas que inquietam a sociedade.  

Neste ano de 2025, por exemplo, a escola de samba do grupo especial do Rio de Janeiro, Paraíso do Tuiuti, homenageou Xica Manicongo, considerada a primeira Mulher Trans documentada no Brasil no século XVI. O desfile não apenas trouxe ao público a história de uma figura esquecida no passado, mas também lançou luz sobre a luta da comunidade trans brasileira contemporânea, falando de inclusão e visibilidade.  

Outro exemplo significativo é o da Estação Primeira de Mangueira, que em 2020 apresentou o enredo "A Verdade Vos Fará Livre", que fez uma releitura crítica da vida de Jesus Cristo, estabelecendo analogias com a sociedade atual e denunciando a violência nas favelas cariocas. Um dos destaques do desfile foi a alegoria "O Calvário", que exibiu a escultura de um menino negro crucificado com marcas de tiros, simbolizando a morte de inocentes nas comunidades periféricas. Essa abordagem provocativa gerou debates acalorados e críticas de figuras políticas conservadoras, incluindo o então presidente Jair Bolsonaro, que acusou a escola de "desacatar religiões".  

Outro exemplo foi a Beija-Flor de Nilópolis que, em 2023, apresentou o enredo "Brava Gente! O Grito dos Excluídos no Bicentenário da Independência", destacando heróis populares e criticando a exclusão social.  

No desfile desteano, das 12 escolas do grupo especial do Rio, 8 abordaram em seus enredos temas relativos às tradições e religiões de matriz africana, seus cultos aos Orixás, debatendo e protagonizando a cultura do povo preto, que é quem faz o carnaval, e denunciando a intolerância religiosa. 

 

Reações Conservadoras e Pânico Moral 

A resposta de setores conservadores e extremistas ao conteúdo político e social dos desfiles de Carnaval muitas vezes se manifesta através de críticas que evocam um pânico moral. Além disso, figuras públicas conservadoras frequentemente associam o Carnaval a práticas que consideram imorais ou contrárias aos valores familiares. 

Essas críticas refletem uma tentativa de deslegitimar a festividade como espaço de contestação e transformação social, buscando reforçar normas tradicionais e suprimir manifestações culturais que desafiam o status quo. 

 

Carnaval como espaço de disputa narrativa 

O Carnaval, portanto, se configura como um campo de batalha simbólica onde diferentes narrativas sobre identidade, moralidade e poder são confrontadas. Ele transcende a mera festividade, 

Enquanto as escolas de samba utilizam seus desfiles para questionar estruturas de poder e promover a diversidade cultural, os críticos conservadores tentam minimizar o impacto dessas manifestações, rotulando-as como ofensivas ou desrespeitosas em relação aos valores que defendem, baseados na hegemonia cristã. 

Essa tensão evidencia a importância do Carnaval não apenas como uma celebração cultural, mas como um espaço vital para a expressão dos anseios e necessidades do povo. A persistência de manifestações culturais que desafiam normas estabelecidas e promovem a inclusão ressalta a vitalidade da vontade popular e a importância de espaços que permitam a expressão de vozes diversas. 

Enquanto as críticas conservadoras buscam conter essa efervescência cultural, o espírito resiliente do Carnaval continua a afirmar sua relevância como instrumento de transformação social e celebração da diversidade. 

 

Violência e repressão policial: a outra face da moeda 

Neste ano, o Carnaval brasileiro foi marcado pelos inúmeros casos de violência, repressão policial e censura, refletindo tensões entre autoridades e manifestações culturais populares. 

Em Porto Alegre, a administração local negou alvarás para diversos blocos de rua, impondo um regime de censura que afetou diretamente a tradicional celebração na Cidade Baixa, um  bairro boêmio da capital riograndense. Essas ações foram vistas como tentativas de controlar e limitar a expressão cultural durante o período festivo.  

No Distrito Federal, denúncias de repressão violenta também vieram à tona. Policiais militares utilizaram armas não letais contra foliões na região da Estrutural, após apresentações carnavalescas. A Comissão de Defesa dos Direitos Humanos, Cidadania e Legislação Participativa da Câmara Legislativa do Distrito Federal iniciou investigações para apurar possíveis abusos de autoridade e violações de direitos dos participantes.  

Esses episódios de 2025 ecoam um histórico de repressão às manifestações culturais no Brasil. Durante a Ditadura Militar, escolas de samba enfrentaram censura e violência policial porque tudo o que vem do povo é visto com desconfiança pela classe dominante, com sua visão preconceituosa e autoritária sobre as massas populares. No Rio de Janeiro, agremiações, blocos e Escolas de Samba sempre resistiram às tentativas de silenciamento, utilizando seus desfiles como forma de protesto e preservação cultural.  

Apesar da persistência de práticas repressivas até os dias atuais, que levanta questões sobre a liberdade de expressão e o direito à manifestação cultural no País, o Carnaval segue como símbolo de diversidade e resistência popular, sendo um espaço de disputa e afirmação de identidades. Irreverência, humor, crítica política e social, fazem do carnaval brasileiro, mais do que diversão, uma reafirmação da resistência contra o controle e a censura feitos pela burguesia e seus extremistas de plantão.

 

Foto: Allan Duffes


Topo