No último 16 de março, o ex-presidente Jair Bolsonaro liderou uma manifestação em Copacabana, Rio de Janeiro, visando angariar apoio popular para um projeto de anistia aos envolvidos nos atos antidemocráticos de 8 de janeiro de 2023. O evento contou com a presença de figuras políticas como os governadores Tarcísio de Freitas (São Paulo), Cláudio Castro (Rio de Janeiro), Jorginho Mello (Santa Catarina) e Mauro Mendes (Mato Grosso), além do presidente do PL, Valdemar da Costa Neto, e do pastor Silas Malafaia. Sobre as estimativas de público geral, elas variam conforme o órgão balizador.
Enquanto a Polícia Militar do Rio de Janeiro afirmou que o ato contou com mais de 400 mil pessoas, o Monitor do Debate Político do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) e a ONG More in Common estimaram a participação em aproximadamente 18,3 mil pessoas. Já o Datafolha calculou a presença de cerca de 30 mil pessoas no evento.
É fato que, em comparação a atos anteriores em defesa do representante da extrema-direita, o ex-presidente Jair Bolsonaro, o evento de março foi “esvaziado”. Contudo, é um erro crucial da esquerda e setores progressistas tratarem a extrema-direita como “marolinha”. Fazer piadas e memes sobre o que chamam de fracasso da manifestação em Copacabana é, no mínimo, desprezar a capacidade de mobilização do inimigo, que tem o capital financeiro nas mãos, um erro já cometido em 2013, cujo resultado foi o golpe contra a ex-presidenta Dilma Rousseff.
Outro agravante na rasa análise daqueles que “comemoram” o “fracasso” das mobilizações da extrema-direita é ignorar o fato de que nos últimos anos a esquerda não tem conseguido mobilizar as massas em torno de causas de interesse popular. Por outro lado, a extrema-direita mantém a ligação com seu séquito por meio de ações que alimentam sua gramática falsamente antissistêmica, contestadora das instituições da ordem. Um ato dominical, organizado por lideranças que falam o que 20 mil pessoas irão reproduzir nas ruas, nos bares, nas igrejas e nas redes sociais deveria causar preocupação na esquerda que quer lutar contra o avanço do nazifascismo no mundo atual.
A burguesia vive sua crise e busca a saída pelos meios que tem. Quando não consegue manter a fachada de democracia ao seu sistema político, ela lança mão do autoritarismo extremo. E é isso que Bolsonaro, governadores eleitos e pastores que o seguem representam: o risco da imposição de uma ordem violenta e autoritária, contra todos os direitos democráticos do povo, para que a classe trabalhadora possa ser esfoliada sem contestação. Transformá-los em meras piadas é alimentar a paralisia que enfraquece a organização das lutas em defesa do governo Lula e dos direitos do povo.
Não se trata de enaltecer ou tentar desmerecer o inimigo que, vale salientar, domina o Congresso Nacional. A questão que deve ser central para a esquerda é a organização das massas, a retomada do trabalho de base, a retomada das entidades de luta da classe trabalhadora e o enfrentamento das políticas de opressão contra o povo. Nossa situação está longe de ser confortável. É preciso ter muita seriedade no debate e no enfrentamento às forças de opressão, que estão dispostas a recorrer a todos os meios para se manter no poder e manter suas altíssimas taxas de lucros por meio da imposição das mazelas aos/às trabalhadores/trabalhadoras.
Foto: Dado Galdieri/Bloomberg/Getty Images