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O vai e vem das negociações entre Rússia e EUA: até quando?

No último dia 25 de março, ocorreu mais um encontro entre os negociadores da guerra na Ucrânia, designados por Putin e os EUA, sob a liderança de Trump. A reunião buscou definir as instalações energéticas que não deveriam ser atacadas e, principalmente, cessar os ataques a navios no Mar Negro e ao porto de Odessa. Os primeiros passos em direção a um possível acordo temporário para o conflito, foram dados quando se anunciou que, por 30 dias, nem a Rússia nem a Ucrânia atacariam as instalações energéticas de ambos os lados. Para cumprir o acordo, a Rússia teve, inclusive, que derrubar seus drones, que tinham como alvo tais infraestruturas. Entretanto, pouco depois do anúncio, a Ucrânia rompeu o cessar-fogo, destruindo um depósito de gasolina russo e continuou a atacar instalações energéticas, inclusive de Moscou. Enquanto as negociações continuavam, mais de 300 drones chegaram ao território russo. 

As provocações ucranianas foram respondidas pelos russos com contra-ataques devastadores em cidades-chave, como Odessa, Sumy (onde está sendo construída uma zona tampão), Kharkiv e Kursk. Por outro lado, a Ucrânia tentou avançar sobre Belgorod, conseguindo penetrar cerca de 7 km no território russo. No entanto, esse avanço teve pouco sucesso. Essa sucessão de eventos deixa transparecer que, ao que tudo indica, os acordos de cessar-fogo continuarão sendo negociados entre a Rússia e os EUA. A realidade é extremamente complexa, e muitos interesses estão em jogo. 

O aumento das tensões entre EUA/OTAN, União Europeia e Rússia é real. O chamado "Ocidente coletivo" já não existe como antes da guerra, quando atuavam como "irmãos siameses", embora obedientes ao império estadunidense, seu maior patrocinador. Como se sabe, a Organização do Atlântico Norte, OTAN, está sendo redesenhada. Os governantes europeus, com pouca força para se sentar à mesa das negociações, estão entregues à própria sorte e devem aprofundar a crise interna de seus países, pois planejam tirar mais dinheiro da população para investir em armamentos, após um mau negócio feito com os Democratas estadunidenses durante a gestão Biden. Fala-se, inclusive, em vultosos empréstimos bancários para tais fins. 

Sabe-se que está sendo desenhada a possibilidade de uma "nova" aliança militar entre, ao menos, quatro países da região do Báltico como alternativa à OTAN, uma vez que temem ser excluídos dessa mesma organização militar que parecia infalível. Entre eles, destacam-se Lituânia, Estônia, Letônia e Finlândia. As promessas europeias de envio de "tropas de paz" para a suposta "defesa" e "segurança" da população ucraniana não passam de “conversa fiada”. A Europa é tão responsável quanto os EUA pela destruição da Ucrânia, pois esta é uma guerra "por procuração" da OTAN contra a Rússia. 

 

Disputas internas, UE encurralada e o fortalecimento do BRICS 

Essa fissura do "Ocidente coletivo" reforça o fortalecimento do BRICS e dos países do Sul Global na luta contra o domínio imperialista estadunidense, favorecendo a nova ordem mundial multipolar que está se consolidando. Neste contexto, há uma tendência de aprofundamento da divisão do “coletivo ocidental” diante da vitória russa e da perda de força da OTAN em seu plano expansionista, sem ganhos igualitários entre os parceiros europeus de longa data. 

A União Europeia, UE, busca garantir seus interesses, mas os EUA não querem dividir seus lucros, especialmente após a vitória russa sobre a OTAN. Um impasse difícil de ser resolvido. Donald Trump deseja obter, aparentemente sozinho, os dividendos da guerra, incluindo a posse dessas terras raras como "pagamento" pelo investimento da OTAN (leia-se, EUA) na Ucrânia contra a Rússia. Internamente, o mandatário dos EUA quer se apresentar ao seu povo como o "grande e único" presidente que encerrou um conflito de três anos e conseguiu recuperar o dinheiro público investido, com ganhos reais para o País. Por outro lado, existe um acordo assinado entre o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, e o governo da Inglaterra para a exploração, por cem anos, das terras raras ucranianas. Esse acordo foi firmado quatro dias antes da posse de Trump.  

A propaganda dos Republicanos alega que Trump está empenhado em "estancar a sangria" dos cofres públicos destinada ao financiamento do conflito. Ledo engano! Os altíssimos lucros obtidos pelas empresas privadas de armamentos, às custas da população estadunidense, seguem "de vento em popa", sem qualquer menção de cortes por parte do governo. Essas contradições tendem a se aprofundar. 

As recentes negociações estão tornando a EU responsável pelo prolongamento e pelo inevitável fracasso da guerra em relação às "promessas" feitas a Zelensky. É visível que a guerra da OTAN está sem perspectivas de reverter a situação em favor do Ocidente. Os EUA apostaram em Zelensky contra a Rússia e, por isso, querem ser compensados, sendo, certamente, os mais favorecidos com a assinatura do acordo. Como Pôncio Pilatos, Trump quer "lavar as mãos", deixando a população ucraniana "a ver navios" e a UE com os prejuízos econômicos e sociais da guerra. 

 

As negociações continuam... 

A Rússia tem pressa em fechar o cerco e deixar a Ucrânia sem saída nas negociações. O controle de Odessa pelos russos deve ser utilizado como "moeda de troca" para a retirada das sanções contra a Rússia, especialmente no que se refere às exportações de grãos e fertilizantes pelo porto de Odessa. De acordo com informe da Casa Branca, “o cessar-fogo no mar Negro permitirá a abertura de um corredor seguro para a navegação de embarcações comerciais. Os Estados Unidos ajudarão a restabelecer o acesso da Rússia ao mercado global de exportação de produtos agrícolas e fertilizantes, reduzirão os custos dos seguros marítimos e melhorarão o acesso aos portos e aos sistemas de pagamento para esse tipo de transação". O acordo, após doze horas de negociações, se materializará? Seguimos acompanhando os momentos decisivos desta guerra de rapina. 

 

Foto: Porto de Odessa, UcrâniaKostiantyn Liberov 


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