A ascensão da extrema-direita no Brasil, durante o fenômeno do bolsonarismo, trouxe à tona figuras marcantes, autoritárias e profundamente questionáveis. Se essa descrição se aplica perfeitamente ao ex-presidente Jair Bolsonaro, também define muitos de seus apoiadores mais fiéis, entre eles a deputada federal, Carla Zambelli. Após anos de polêmicas, escândalos e ataques à democracia, a carreira política da deputada pode terminar com a cassação de seu mandato pelo Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP), que confirmou, em janeiro deste ano, sua inelegibilidade por oito anos. Zambelli ainda pode recorrer ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
O caso mais emblemático — e talvez o mais grotesco — de sua trajetória ocorreu na reta final da campanha presidencial de 2022, quando Zambelli, armada com uma pistola, perseguiu um homem negro pelas ruas de São Paulo, gritando: "Usaram um negro para me difamar!". As imagens chocantes viralizaram e se tornaram símbolo da escalada de violência do bolsonarismo. O episódio não apenas marcou sua imagem, mas foi decisivo para sua cassação, já que o TRE-SP considerou que ela cometeu abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação ao usar suas redes sociais para difamar adversários e espalhar desinformação.
O ministro do STF, Gilmar Mendes, ao apresentar seu voto no processo que analisava a conduta de Zambelli, destacou que a deputada não apenas cometeu abuso de poder político, mas também incorreu em crime eleitoral e incitação à violência, o que justificaria não apenas a cassação, mas também sua prisão preventiva.
Antes mesmo da perseguição armada, Zambelli já era conhecida por seus atos vis e pela adesão a teorias conspiratórias. A deputada ganhou notoriedade durante as manifestações pró-impeachment da então presidenta Dilma Rousseff, quando deu entrevistas exaltando seu papel na organização dos protestos. Zambelli era responsável pelo controle do uso dos banheiros químicos nas manifestações. Anos depois, voltou a chamar atenção em um vídeo gravado em frente a uma loja da Havan, rede do empresário bolsonarista Luciano Hang, no qual acusava o estabelecimento de pertencer à filha de Dilma, sugerindo enriquecimento ilícito sem qualquer prova.
Longe de ser reconhecida por sua competência legislativa, Zambelli construiu sua imagem pública como uma “máquina” de fake news. Sua atuação nas redes sociais, especialmente no X (antigo Twitter), resumia-se a ataques odiosos contra o presidente Lula, com postagens distorcidas e mentiras descaradas. Seu método preferido era recortar manchetes de jornais, como Folha de S.Paulo e Metrópoles, remontando-as com acréscimos de sua autoria — muitas vezes completamente fora de contexto — para alimentar o ódio e a polarização entre seus seguidores.
Com a decisão do TRE-SP, Zambelli não apenas poderá perder o mandato, mas também ficará inelegível até 2030. A colunista do portal UOL, Andreza Matais, lembra que, caso a cassação se concretize, o cálculo político da eleição de São Paulo vai ser todo refeito, pois ela foi a deputada do PL com o maior número de votos em São Paulo, quase 1 milhão de votos.
Chega até a ser “natural” os setores progressistas comemorarem as quedas dos representantes da extrema-direita, pois o sentimento é que isso representaria um “respiro” para os que lutam contra o autoritarismo, a violência e a mentira na política institucional. No entanto, é preciso ter cuidado com essas comemorações. Não podemos ter ilusões e nem apostar todas as fichas nas disputas internas de setores da burguesia, substituindo-as pela luta real, concreta da classe trabalhadora. Quando o poder judiciário joga suas garras contra o poder legislativo, inclusive com perseguições contra pessoas eleitas pelo povo, isto deve ser motivo de preocupação para os representantes dos trabalhadores. Trata-se do flagrante crescimento de poder de uma instituição cujos personagens não são escolhidos pelo povo e que age, diuturnamente, em favor da opressão burguesa. Não podemos esquecer que esse mesmo judiciário promoveu uma “caça às bruxas” contra os governos do PT, especialmente contra a ex-presidenta Dilma e o atual presente Lula.
A sociedade brasileira está polarizada e a esquerda deve tomar cuidado para não tomar para si pautas que são da extrema-direita, por mais transvestidas que possam estar. O autoritarismo, a mentira, a violências e as políticas neoliberais levadas a cabo por esses políticos ligados ao bolsonarismo devem ser enfrentados pelos trabalhadores em suas lutas, nas ruas. Esse é o único caminho para enfrentar a tirania dos donos do capital.
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