
A Cabanagem, também chamada Guerra dos Cabanos, foi uma revolta popular e social que ocorreu na então Província do Grão-Pará entre 1835 e 1840, durante a regência de Diogo Antônio Feijó no Império do Brasil, um período de grande conturbação social e política no País.
Diferente de várias outras revoltas que ocorriam no período regencial, a Cabanagem (1835-1840) é vista como a única revolta brasileira em que as camadas populares — indígenas (tapuios), negros escravizados e libertos, e ribeirinhos (cabanos) — efetivamente tomaram e exerceram o poder provincial. Um exemplo que a História oficial, escrita pelas elites, preferiu esconder, caracterizando-a apenas como uma revolta regional desordenada.
A raiz do conflito não foi apenas política, mas sim a extrema pobreza, a desigualdade social profunda e a exploração exercida por comerciantes portugueses e elites locais aliadas ao governo central no Rio de Janeiro.
Uma de suas lideranças mais combativas foi Eduardo Angelim, um lavrador cearense que chegou ao Pará fugindo da seca em seu estado e logo transformou-se em um político defensor da autonomia do Grão-Pará em relação ao Império brasileiro, que mantinha a região amazônica no isolamento. Junto a esse anseio político, a Cabanagem agregou os empobrecidos e explorados e buscou a liberdade dos escravizados, a expulsão de colonizadores e uma forma embrionária de democracia popular.
Na madrugada do dia 7 de janeiro de 1835, os rebeldes (tapuios, cabanos e negros) conquistaram o quartel e a sede do governo de Belém e, durante 5 anos, os conflitos envolvendo cabanos e forças legalistas, e no interior do próprio movimento, foram constantes. Isso porque nem sempre os interesses das lideranças do movimento, que representavam as elites, coincidiam com os interesses das camadas populares envolvidas na luta. Mesmo após a prisão de Eduardo Angelim, os cabanos lutaram até serem completamente exterminados, em 1840, quando a rebelião já tinha avançado pelos rios da bacia amazônica e o mar Atlântico, chegando às fronteiras do Brasil Central e próximos do litoral norte e nordeste. Pode-se dizer que essa luta popular, democrática e nacional teve uma amplitude extensa – indo desde os enfrentamentos pela Independência, em 1822-1823, até a derrota final e sangrenta da Cabanagem, no final da década de 1840.
Como todas as outras revoltas do período regencial, a Cabanagem foi massacrada pelas forças legalistas do Império brasileiro. O desfecho, sanguinário e cruel, é denunciado como um genocídio de classe e etnia perpetrado pelo Estado Imperial para garantir a unidade territorial e a ordem escravocrata. Nações indígenas como os Mura e os Maué (hoje Sateré Mawé), protagonistas da resistência cabana, quase foram dizimadas.
Hoje a Cabanagem completa 191 anos e é comemorada pelos movimentos sociais como a luta contra a opressão imposta pelos centros de poder da metrópole colonial e do Império brasileiro. Foi uma revolução dos de baixo, com sua face predominantemente indígena e negra, que ousou constituir, mesmo que por breve período, governos revolucionários em nossa terra.
Hoje é dia de, mais uma vez, lembrar que todo poder emana do povo!
Viva a Cabanagem!
Imagem: “Belém Cabana”, painel em homenagem à Revolta da Cabanagem, realizada em 1974 pelo pintor Benedicto Mello. Assembleia Legislativa do Estado do Pará (ALEPA)