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Por que os EUA atacaram a Nigéria?

Cumprindo promessa feita na plataforma Truth Social de "fazer coisas com a Nigéria das quais a Nigéria não vai gostar" e "entrar nesse país agora desonrado com armas em punho", no dia 25 de dezembro do ano passado, uma data sagrada para o calendário cristão, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ordenou o lançamento de ataques no noroeste da Nigéria, onde militantes do grupo Estado Islâmico (EI) realizam uma longa insurgência.

De acordo com as Forças Armadas dos EUA, os campos administrados pelo grupo no estado de Sokoto, localizado na fronteira da Nigéria com o Níger, foram atingidos, provocando "múltiplas" mortes. Trump, disse que os ataques foram "poderosos e mortais" e classificou o grupo como "escória terrorista", afirmando que ele vinha "atacando e matando cruelmente, principalmente, cristãos inocentes".

O ataque teve apoio do governo nigeriano, pró imperialismo, de Bola Tinubu. O ministro das Relações Exteriores do país, Yusuf Maitama Tuggar, disse à BBC que a operação havia sido planejada "há bastante tempo" e utilizou informações de inteligência fornecidas pelo lado nigeriano. Para esconder os verdadeiros motivos do ataque, assim como ocorria nas investidas dos EUA contra outros países até então, Trump utilizou uma suposta cruzada religiosa. Havia meses, ativistas e políticos na capital Washington afirmavam que militantes islâmicos estariam atacando sistematicamente cristãos no país africano.

No entanto, reportagem feita pela BBC, publicada em 27 de dezembro, logo após os ataques, contesta os números apresentados para sustentar a ação bélica. O próprio governo nigeriano, embora não negue a existência da violência letal em seu país, que faz vítimas de todas as religiões e credos, também alerta que os dados são uma grave deturpação da realidade. Tuggar, sem mencionar o EI, também afirmou que a operação "não tinha nada a ver com uma religião específica".

De acordo com a reportagem, organizações que monitoram a violência política na Nigéria apontam que o número de cristãos mortos é bem menor do que aqueles que circulam nas redes sociais e afirmam que a maioria das vítimas dos grupos jihadistas é muçulmana. O analista de segurança nigeriano Christian Ani disse que, embora cristãos tenham sido atacados dentro de uma estratégia mais ampla de espalhar o terror, não é possível afirmar que sejam um alvo deliberado.

A BBC também apurou que as estatísticas usadas por políticos dos EUA sobre a violência contra cristãos na Nigéria têm origem obscura e fontes que confirmariam pesquisas divulgadas sobre o tema não são encontradas. Os dados utilizados, em sua maioria são fornecidos pela organização não governamental International Society for Civil Liberties and Rule of Law (InterSociety, Sociedade Internacional pelas Liberdades Civis e o Estado de Direito, em tradução livre) que monitora violações de direitos humanos na Nigéria, cujo trabalho é pouco transparente. Além de não apresentar uma lista detalhada de fontes, o que torna impossível verificar o total de mortes relatadas, as fontes citadas pela organização não correspondem aos números divulgados.

Políticos como Ted Cruz, senador do Texas pelo Partido Republicano, utiliza os dados questionáveis da InterSociety, com grande repercussão nas redes sociais, para acusar autoridades nigerianas de "ignorar e até facilitar o assassinato em massa de cristãos por jihadistas islâmicos". Trump reiterou esse discurso e chamou a Nigéria de "país desonrado", para justificar o ataque.

Pesquisadores que estudam os conflitos internos na Nigéria rejeitam a ideia de que se tratem de conflitos religiosos, afirmando que as disputas geralmente envolvem o acesso à terra e água. Os pastores fulanis, grupo étnico majoritariamente muçulmano, presente em vários países da África Ocidental, que tradicionalmente vive da criação de gado e ovelhas, por exemplo, já entraram em confronto com comunidades muçulmanas e cristãs em diferentes regiões da Nigéria. De acordo com o Acled, um grupo que analisa a violência política em todo o mundo, grupos jihadistas como o Boko Haram e a Província do Estado Islâmico da África Ocidental têm causado estragos no nordeste da Nigéria há mais de uma década, matando milhares de pessoas — no entanto, a maioria delas era muçulmana.

Há que se entender o que está por detrás da declaração de Trump de que a Nigéria é um "país de especial preocupação". Com certeza isso não se deve à "ameaça existencial" que o país representa para a sua população cristã, como o estadunidense quer que acreditemos. Os ataques se dirigem justamente à região da Nigéria que se encontra sob influência das lutas anti-imperialistas da região do Sahel, o Norte. O imperialismo designa as nações do Sahel como os “jihadistas do Norte”. Desde 2020, a região viveu uma onda de golpes militares de caráter nacionalista, com foco em Mali, Burkina Faso e Níger. Em 2026, esses governos consolidaram uma ruptura drástica com as antigas potências coloniais, especialmente a França, e buscaram novas alianças geopolíticas na Ásia.  Isso significa que a Nigéria está muito próxima do foco da mais radical luta no continente atualmente, o Sahel francês.

Fantoche do imperialismo ocidental, Bola Tinubu seguiu as ordens dos franceses, norte americanos e ingleses e iniciou sanções aos vizinhos. No entanto, os conflitos internos e a extrema desigualdade social mantem o clima de instabilidade política na Nigéria, o país mais populoso da África, governado por Tinubu desde 2023. Com a economia baseada na exportação de petróleo, o país é o mais rico do continente em PIB, mas mantém a maioria de sua população em extrema pobreza. E são as contradições internas, marcadas pela violência, que pderão atrapalhar os planos imperialistas de usar o governo de Tinubu para realizar a mais austera política neoliberal em seu favor, em contraste com as reformas sociais promovidas pelos governos nacionalistas vizinhos. 

Trump, sob falso pretexto, assim como na agressão à Venezuela, mandou seu recado ao Sahel e a todos que lutam contra o imperialismo ocidental. São peças se movimentando no tabuleiro de xadrez da geopolítica. À classe trabalhadora mundial resta a defesa de todas as lutas anti-imperialistas e pela autodeterminação dos povos.

 

Foto: ABIODUN JAMIU / AFP


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