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Cuba no centro da tempestade: entre agressões externas e a solidariedade global

Enquanto o mundo enfrenta crises múltiplas, uma ilha no Caribe vive um cerco que parece saído de outra época. Nas últimas semanas, Cuba tornou-se alvo de uma ofensiva diplomática e econômica coordenada que expõe as fraturas do direito internacional e a determinação de um povo que há mais de seis décadas resiste às pressões do poder imperialista. A escalada, protagonizada pelo governo dos Estados Unidos, encontra, no entanto, uma barreira intransponível: a dignidade do povo cubano e uma onda de solidariedade internacional que se recusa a abandonar a Ilha a sua sorte.

O primeiro sinal da tempestade veio de Quito. O governo do presidente equatoriano, Daniel Noboa, capacho dos EUA, decidiu expulsar todo o corpo diplomático cubano, numa ação que o ministro das Relações Exteriores de Cuba, Bruno Rodríguez, classificou como uma violação flagrante do direito internacional. “O Presidente do Equador mente cinicamente, com pretextos fabricados sobre a atuação do pessoal diplomático de Cuba”, denunciou Rodríguez em suas redes sociais.

A acusação de La Habana é grave e fundamentada: Noboa, que já havia protagonizado o infame assalto à Embaixada do México em Quito, em 2024, agora dobra-se aos interesses estrangeiros. “Ele o faz com evidente servilismo para agradar ao governo dos EUA”, sentenciou o chanceler cubano, lembrando que o mandatário equatoriano “é conhecido por sua vocação de desconhecer e violar o Direito Internacional, em particular, a Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas”.

Para Cuba, a ação não é um fato isolado, mas um capítulo a mais na política de Washington de isolar a Ilha e pressionar governos alinhados a romper relações. O presidente Miguel Díaz-Canel, em resposta, fez um apelo à unidade latino-americana, alertando para os perigos do avanço dos interesses estadunidenses na região.

 

A face cruel do bloqueio: uma catástrofe humanitária

Enquanto a diplomacia sofre ataques, quem mais padece é o povo cubano. A mais recente e brutal investida do governo de Donald Trump consistiu em endurecer o bloqueio econômico, comercial e financeiro que asfixia a Cuba há mais de 60 anos. Em janeiro, Trump assinou uma ordem executiva que declara uma emergência nacional, acusando a Ilha – num exercício de propaganda inacreditável – de ser uma ameaça à segurança dos EUA. O verdadeiro objetivo é estrangular a economia cubana, impedindo a chegada de combustível e empurrando o País para o colapso.

A estratégia está funcionando, e suas consequências são dramáticas. A Organização das Nações Unidas (ONU), que anualmente condena o bloqueio em assembleia, emitiu um alerta terrível. Stéphane Dujarric, porta-voz do secretário-geral, revelou que a situação do sistema sanitário cubano se aproxima de um ponto crítico. Os números são estarrecedores.

Cerca de 60 mil pacientes oncológicos que necessitam de radioterapia e outros 12 mil que precisam de quimioterapia não conseguem tratamento regular devido aos cortes de energia e à falta de recursos. Hospitais enfrentam apagões frequentes, comprometendo serviços de urgência, pediatria e maternidade. Mais de um milhão de pessoas dependem de água transportada por caminhões-pipa, um serviço paralisado pela falta de combustível. Mais de 80% dos sistemas de bombeamento de água estão comprometidos pela crise energética.

Diante deste cenário, a ONU viu-se forçada a negociar com o governo dos EUA um pedido humanitário básico: permitir a entrada de combustível para que as agências do organismo possam operar e salvar vidas. Francisco Pichón, coordenador da ONU em Cuba, foi direto: “É urgente a solidariedade que o país requer num momento como este”. A imagem é paradoxal e revoltante: a maior potência mundial precisa ser “convencida” pelas Nações Unidas a permitir a entrada de combustível para que crianças e pacientes com câncer em Cuba não morram.

 

Solidariedade em vez de bloqueio

No entanto, a história de Cuba não é apenas a história do bloqueio. É também a história da resistência e da solidariedade que lhe é devolvida. Enquanto Washington aperta o cerco, uma delegação da Assembleia Internacional dos Povos reuniu-se em Havana para enviar uma mensagem clara: o mundo não está alinhado com a política de asfixia dos EUA.

O líder do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) do Brasil, Joao Pedro Stedile, convocou a intensificação da solidariedade global para combater o que chamou de "ameaça à paz mundial" representada pelos planos de guerra do império. A resposta mais comovente, porém, veio da África.

O presidente do Partido Socialista da Zâmbia, Fred M’membe, lembrou que o único “perigo” que Cuba representa é o seu exemplo de bondade e solidariedade. Em gratidão pelo apoio incondicional de Cuba às lutas de libertação africanas no século XX, M’membe anunciou que nações africanas compartilharão seus recursos com a Ilha. É a justiça histórica a falar mais alto que o bloqueio.

Até mesmo de dentro dos Estados Unidos surgem vozes de oposição. O líder do Partido pela Socialismo e Libertação dos EUA, Brian Becker, esclareceu que as ações do governo Trump são uma extensão de uma guerra econômica contra um país soberano, e garantiu que o povo americano não apoia os planos intervencionistas de seu governo. 

 

Até quando o povo cubano resistirá?

A expulsão de diplomatas com base em mentiras e o aperto de um bloqueio genocida são duas faces da mesma moeda: a tentativa de dobrar a vontade de um povo que escolheu ser livre a partir de uma revolução vitoriosa. Os EUA usam a tática de asfixiar um povo para derrubar regimes que não são subservientes aos seus interesses. Antes da revolução de 1959, Cuba era um paraíso para investidores estadunidenses. Enquanto o povo vivia na miséria, as corporações lucravam com turismo, cassinos, prostituição e hotéis de luxo. O plano atual é trazer de volta essa realidade.

A resposta global, que vai desde a solidariedade africana até as vozes dissidentes nos EUA, passando pelos movimentos sociais da América Latina, prova que Cuba não está sozinha. Ao tentar isolar Cuba, Washington expõe o seu próprio isolamento moral. A história, mais uma vez, julgará severamente os que tentam asfixiar um povo cujo único crime é insistir em viver com dignidade e soberania. Até quando resistirá?

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Foto: JF Martin / Unsplash


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